Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Unsteady

"real life was something happening in her peripheral vision"

10
Nov18

Eu cá não vejo nada do que eles vêem e se calhar, por agora, devia estar grata

Desde que entrei para o ensino básico, uma das minhas maiores preocupações é a aparência. Sempre fui a maior da turma, porque era mais alta do que devia para a idade e destacava-me entre todos os restantes, que mediam praticamente o mesmo. Vivia a ouvir comentários sobre a minha altura, como se eu já não soubesse que era demasiado alta para a idade, e incomodavam-me mesmo quando não tinham qualquer intenção de me magoar - mas estarem constantemente a elucidar-me de que eu era "demasiado alta para a idade!" era algo que eu não precisava. Outra coisa que, nem sempre foi constante a minha vida toda mas que marcou grande parte da mesma, era o facto de eu ser gorda. Cheinha, gordinha, calcada, chamem-no o que preferirem, eu era gorda. Tinha uma barriga redonda e umas pernas que davam duas ou três das pernas das minhas colegas. É claro que em criança não era algo que me incomodava tanto como passou a incomodar assim que comecei a frequentar a escola secundária, junto dos "maiores que eu" que eram 99% magros, bonitos e cheios de amigos. Começou aí a minha altura para me tentar encaixar naquilo que seria o mais aceitável: emagrecer, ficar com um corpo semelhante aos restantes e, consequentemente, ganhar amigos (porque na minha cabeça era mesmo assim que as coisas funcionavam). 

Durante anos oscilei entre comer decentemente, entre não comer e entre binge eating. O meu corpo foi sofrendo todas as mudanças e eu, em nenhuma delas, me senti confortável - não fiquei bem quando estava gorda, não fiquei bem quando consegui ser magra, não fiquei bem quando atingi um peso exorbitante que me abria as portas para a obesidade, não fiquei bem quando consegui perder todo o excesso, resumindo, nunca fiquei bem e lutava constantemente com aquilo que via no espelho, vingando-me na comida, que por vezes era a minha melhor amiga e por outras vezes a minha maior inimiga. 

Desde há 1 ano para cá que ando a ganhar mais peso, porque não só fiz más escolhas na minha alimentação durante as férias, como também ando a brincar muito com as hormonas (e toda a gente sabe como funcionam as hormonas femininas). Capacitei-me de que se eu queria sentir-me bem teria de engordar um bocado até o meu corpo se adaptar, aceitar todos os meus desejos alimentares e abraçá-los com amor, porque comida é das melhores coisas que existe neste mundo - mas abracei com demasiada força e acabei por engordar o dobro daquilo que planeava. Contudo, e isto vai parecer estranho, sinto-me bem comigo própria, como nunca me senti quando era mais magra. Apesar de estar mais pesada e de querer perder todo o excesso, sinto-me bem, sinto-me feliz. Aceito o meu corpo agora um bocadinho mais do que aceitava antes e estou a respeitar o tempo que ele necessita para se recuperar. Não sei bem porque é que me sinto assim, mas é um facto. E também é facto que agora que me sinto bem, ouço mais comentários desagradáveis e tenho mais gente a reconhecer que, realmente, estou gorda e devia ter atenção antes que apanhe algum desgosto. Eu cá não vejo nada do que eles vêem e se calhar, por agora, devia estar grata, porque aceito-me e reconheço simultaneamente que preciso e vou mudar, mas com tempo e paciência.